Atravessar Ourense não foi tarefa fácil. Dentro do perímetro urbano as "flechas" amarelas desaparecem, dando lugar às vieiras, que estão cravadas ao longo dos passeios. Só a larga experiência do Júnior permitiu que rolássemos por Ourense sem uma única falha.
Atravessar Ourense foi para mim extremamente agradável. Nunca tinha "rolado" de bicicleta em circuito citadino com transito automóvel tão intenso.
Após Ourense uma grande "parede": A Calçada Real, que é um troço do "Caminho", na sua quase totalidade pavimentado com grandes lages de granito, com excepção na parte final, e de onde se obtém vista fabulosa sobre a cidade e onde eu furei (para grande alivio do Oliveira).
(Paragem para almoço)
(Cea)
Após Cea, o imponente mosteiro medieval de Oseira, de fundação beneditina. A merecer demorada visita, não concretizada. Uma grande falha nesta "peregrinação". Falha que ficou gravada na minha memória. Acolhe peregrinos ...
(O imponente mosteiro beneditino de Oseira)
Logo após o mosteiro outra grande "parede" a exigir muito das pernas e das montadas, extremamente técnica, a que se seguiu um lanço, não muito longo, que mais parecia um carreiro de cabras, que teve de ser feito de forma apeada.
(Neste lanço, com o Beto a abrir caminho", os tojos eram uma constante)
(Outro pormenor da descida)
Neste 2.º dia a chuva fustigou-nos de forma insistente.
A etapa terminou em Castro Dozón, onde chegámos completamente encharcados, debaixo de chuva intensa.
(O Oliveira junto do albergue de Castro Dozón)
Em Dozón mais uma "dor de cabeça": Não tínhamos onde jantar. O pessoal de Bragança optou por cozinhar o seu próprio jantar no albergue com produtos que adquiriu num pequeno supermercado local. Nós, os da Guarda, optámos por umas "sandochas" feitas com "embutidos" que adquirimos também nesse mesmo estabelecimento, indo "trinchá-las" para o piso superior do edifício, que funcionava como café, e onde visionámos um jogo de futebol, julgo que para as competições europeias.
O albergue de Dozón funciona num edifício pré-fabricado e tem óptimas condições de acolhimento. O único ponto negativo que lhe apontámos foi no ar condicionado, cujo aparelho era extremamente ruidoso, tornando-se, por isso, incomodativo.
Dia 3 - 15 de Abril de 2009 (quinta feira): Castro Dozón\Santiago de Compostela - 68 Km
Acumulado ascendente: 1 756 m
Acumulado descendente: 2 261 m
Gráfico de altimeteria:
Gráfico extremamente enganador. Não sendo o pior dos três, foi um dia muito difícil.
O despertar, tal como nos dias anteriores, aconteceu pelas 5,00 horas. Só que o dia amanheceu extremamente chuvoso, retardando a saída do albergue. Começamos a pedalar um pouco depois das 8,30 horas, ainda chuviscava, o que fez com que os primeiros Km da etapa fossem percorridos em trilhos extremamente enlameados.
Pouco depois as condições meteorológicas melhoraram consideravelmente, de tal forma que quando chegámos a Santiago o sol raiava.
(Preparando as montadas para a última etapa, debaixo do alpendre do albergue)
(O que o amigo Oliveira fez para se proteger da chuva!!!)
(Ponte romana sobre o rio Deza - Taboada)
(O grupo num momento de descontracção)
(No desvio - Apreciando as obras da nova ponte sobre o rio Ulla)
(Depois da passagem pela ponte velha sobre o rio Ulla)
Neste último dia, não houve direito a paragem para almoço. Como forma de recuperar tempo decidimos comer apenas uns "bocadillos", de onde em onde, até chegar a Santiago.
Na parte final da etapa o grupo separou-se. O pessoal de Bragança, como estava com alguma pressa, aumentou a cadência com o intuito de apanhar o comboio ao final do dia, com destino a Puebla de Sanábria.
Nós progredimos em ritmo mais lento. Por volta das 16,30 chegámos à praça do Obradoiro.
(Nas proximidades de Santiago - ao fundo já se conseguia distinguir a cúpula da catedral)
(Uma imagem vale por mil palavras!!!)
A chegada à Praça do Obradoiro é sempre um momento mágico. É algo que mexe connosco.
Depois de arrefecer um pouco as emoções dirigimo-nos à Oficina do Peregrino onde recolhemos a nossa "Compostela".
(Junto à Oficina do Peregrino)
Neste último dia chegámos imundos. As nossas montadas carregavam alguns Kg de trampa (para não dizer outra coisa).
Uma vez chegados ao destino havia a necessidade de arranjar local onde pernoitar e adquirir uns sapatos para mim e para o Nuno, pois as únicas botas que tínhamos eram as que trazíamos nos pés essas estavam intratáveis!...
A ideia inicial era pernoitar no Seminário Menor, só que o Oliveira, sem que déssemos conta, já havia "bajulado" dormida numa pequena pensão localizada muito próximo da catedral, ficando extremamente bem instalados, tendo ainda a possibilidade de lavar as bikes com toda a tranquilidade, pese embora a chuva que teimava em cair.
Adquirir calçado não se revelou tarefa fácil. Ia-mos provocando um ataque de pânico às meninas da sapataria!
Como estávamos extremamente sujos (e mal-cheirosos) lá se resolveu a situação com alguns jornais e sacos de plástico!...
O Nuno adquiriu umas "All Star" por, imagine-se, 5,00 € e eu adquiri uns sapatos por pouco mais!...
(Foi neste estado lastimoso que chegámos a Santiago)
Bicicletas lavadas e arrumadas e depois de bem higienizados fizemos uma deslocação até ao "El Corte Inglês" onde adquiri um casaco, uns calções de ciclismo e um suporte para a bicicleta.
Com a ajuda de um taxista "descobrimos" um restaurante onde fomos príncepescamente tratados. Desde os mexilhões avinagrados até à carne (Xoleton), passando pelas sobremesas, tudo bem regado com um bom vinho, incluindo um "Porto" para acompanhar os queijos, contribuíram para tornar inesquecível este belo repasto.
O jantar ficaria, no entanto, "ensombrado" por um longo telefonema recepcionado pelo Oliveira, julgo que do Félix, onde lhe foi transmitido que o grupo de Bragança ainda se encontrava em Santiago, por impossibilidade do transporte das bicicletas no comboio.
Nós, o grupo da Guarda, fomos dormir o "sono dos justos".
Quanto ao pessoal de Bragança, andaram toda a tarde (e noite) numa roda viva a tratar de transporte alternativo, com recurso a uma carrinha rent-a-car, chegando pela manhã de sexta-feira (16 de Abril) a Bragança.
Dia 4 - 16 de Abril (sexta feira) - Regresso às origens
Este foi o nosso último dia em Santiago.
A manhã foi dedicada a demorada visita à catedral e zona envolvente, horários e aquisição de bilhetes para o comboio.
De referir que em Espanha a Renfe permite o
transporte de bicicletas nos seus comboios, com alguns condicionalismos, pelo que se aconselha consulta previa.
Assim, ao fim da tarde saímos de Santiago, em direcção ao Ourense, onde fizemos o transbordo para a automotora que nos levaria até Puebla de Sanábria, onde chegámos noite dentro.
O transbordo Ourense\Puebla de Sanábria foi de um "regabofe" tal, em especial para o Oliveira, que ainda hoje deve andar a ouvir musicas que permutou com as simpáticas "espanholitas" de Sanábria.
(A caminho da estação da Renfe)
(No interior do comboio)
A ideia inicial era fazer a ligação, desde Puebla Sanábira, a Bragança de bicicleta, dai eu ter adquirido uns calções de ciclismo no "
El Corte Inglês", no entanto os horários dos comboios inviabilizaram tal concretização.
Assim o Oliveira, de entre as várias hipóteses, lá se lembrou de um velho amigo que nos foi buscar numa velhinha Ford Transit.
O dia terminou com uma bela jantarada com o restante pessoal de Bragança, num restaurante local.
No dia 17 de Abril (Sábado), pela hora do almoço, estávamos de regresso a casa.
(O transporte do pessoal de Bragança)
Um agradecimento muito especial ao Júnior, Félix, Beto e Dr. Nuno Santos, pois foram incansaveis e transmitiram-nos um sentimento de união e de amizade muito fortes.
O Júnior, na imagem acima, foi o guia. O que eu aprendi com ele! ...
Este homem em cima da bicicleta (e fora dela) é um SENHOR. Um verdadeiro líder.
Passaram três anos desde esta aventura.
Três anos depois voltei a encontrar o Oliveira e o Nuno (Marques) na Praça do Obradoiro, em Santiago, desta vez percorrendo o
Caminho Central Português.
É costume dizer-se que quem faz o "Caminho" nunca mais pára. Qual será o Próximo?
(A Minha primeira "Compostela")
NOTA: Pode visualizar ou descarregar o TRACK aqui